- 19 de mai. de 2024
Comecei a ler o primeiro livro da série, O Problema dos Três Corpos, em 31 de março e li em 3 dias na edição brasileira da Suma de Letras.
Os outros dois eu encarei em inglês e terminei em 15 de maio.
Por três meses e meio fiquei vivendo dentro da história e gostei tanto que resolvi escrever algumas das minhas impressões sobre eles.
Se quiser saber mais sobre a história em si, recomendo o post da Sybilla
Essa série de livros do autor chinês é interessante por muitos motivos.
O mais óbvio é porque a história é boa, bem desenvolvida, contém inúmeras ótimas idéias e vai agradar quem gosta de ficção científica ao estilo do Asimov ou do Clarke: aquele estilo de ficção científica que se apóia fortemente em questões de desenvolvimento tecnológico fundamentado nas teorias mais avançadas da área.
A caracterização e o desenvolvimento dos personagens acontece mas fica em segundo plano. O lado forte desta série é a evolução da tecnologia ao longo de mais de 400 anos da humanidade, à espera pela invasão por uma espécie muito mais avançada tecnologicamente. Por vezes a narrativa avança décadas ou séculos de um parágrafo para o outro e isto não incomoda, ao contrário, você quer saber mesmo é o que vai acontecer no futuro e na série o futuro chega logo quando é necessário. Outras vezes o autor se foca por muitas e muitas paginas por algo que parece ser inútil mas que ajuda a criar o clima para valorizar aquele ou aquela personagem mais à frente.
Algumas pessoas com quem conversei desanimaram da série (que começa igual ao livro embora seja beeem diferente em muitos detalhes logo depois) na primeira cena que parece ser uma crítica à China.
Mas o livro começa igual: a autocrítica em relação aos excessos da Revolução Cultural faz parte da narrativa contemporânea da China e é abertamente discutida por lá já faz muito tempo.
A série me fascinou também porque faz muitas referências a outros autores sem mencioná-los diretamente. Tecnologias como o elevador espacial (proposto pelo já citado Arthur C. Clarke) formam uma parte importante da narrativa.Tenho quase certeza que inúmeras outras referências do tipo estão dispersas pelos três livros e minha pouca erudição em ficção científica não foi capaz de captá-las.
O próprio título norte-americano da série de livros também faz uma curiosa referência ao nome em inglês da série de livros do Proust, Em Busca do Tempo Perdido que em inglês ficou Remembrance of Things Past.
Sem fazer referência direta os livros de Cixin Liu também põe em ação uma situação imaginada por Stanislaw Lem que descreve como poderia ser a comunicação entre seres avançados a ponto de conseguirem alterar as próprias leis da física.
Certamente não por acaso que o nome do sistema de onde vêm os alienígenas seja TriSolaris.
Mas ao invés de uma mera comunicação, na série a relação entre civilizações é feita quase sempre em contexto de guerra seja para o ataque ou para defesa.Fiquei pensando que talvez seja por isso mesmo que a série de um escritor chinês tenha feito sucesso no mercado norte-americano. Os Estados Unidos são uma nação com uma enorme cultura militar que permeia a cultura de modo onipresente e não precisa ir muito longe em Hollywood para perceber isto.
A série chinesa descreve uma situação de guerra universal, com civilizações se eliminando umas as outras, uma verdadeira guerra nas estrelas. Para os personagens de Liu, o Universo seria uma Floresta Escura com civilizações sempre à espreita para atacar.
Fico pensando o que Carl Sagan (otimista a ponto de capitanear o envio de uma sonda terrestre gritando para o Universo "Ei, estamos aqui! Somos assim!") teria a dizer sobre essa teoria. É até possível que tenha sido confrontado com essa teoria ainda em vida. Se alguém souber de um texto de Sagan que discorra sobre o assunto, favor avisar pois eu não lembro de ter lido.
Sendo uma série de livros que descreve uma situação de guerra universal, eu provavelmente não teria ficado muito empolgado em ler se soubesse disso antes. Mas a tal guerra descrita na série é muito mais estratégica do que feita de batalhas entre naves, o que torna tudo muito mais interessante e muito pouco óbvio. Certas partes do livro são pura sociologia e antropologia futurista: especulações tanto sobre outras espécies quanto sobre a nossa própria futura civilização terrestre, caso cheguemos lá.
Além do ensaio de Stanislaw Lem, este sensacional hackeamento das leis da física para fins bélicos por civilizações suficientemente avançadas, a série também me lembrou a tetralogia Ware do escritor Rudy Rucker.
Nesta outra série o autor acompanha cerca de 200 anos de desenvolvimento da tecnologia de robótica, escrevi sobre ela em outro post.
No entanto são livros bastante diferentes. Recomendo ambos e creio ter ficado tão impactado pelos livros de Liu quanto pelos de Rudy Rucker.
Conclusão: é uma série de livros cabeçuda e com questões complexas de ciência avançada. Se você não gosta de acompanhar o desenvolvimento das teorias científicas você provavelmente vai se perder em vários momentos e não vai gostar.
- 20 de abr. de 2024
Quando vi esse post no Xwitter
onde aparece um registro de um computador escrevendo o que consegue entender da água da chuva que cai do lado de fora sobre um pedaço de papel,
lembrei de um trabalho que eu fiz em parceria com a Monica Rizzolli https://monicarizzolli.io/main, amiga e artista, em 2002:
Essa performance, Resposta ao Tempo Presente, foi apresentada em três dias seguidos durante o Ciclotaoro - Neo Tao.
Teatro do Centro da Terra, São Paulo, Brasil, durante o I Circuito Petrobrás de Artes Cênicas com curadoria de Ricardo Karman e Renato Cohen em 15,16 e 17 de Novembro de 2002.
A proposta era combinar uma tecnologia de reconhecimento de voz, o Via Voice da IBM, algo bastante novo na época, com uma performance de body-art.
A Monica se cobriu de palavras escritas com jenipapo com a ajuda de performers e assistentes do coletivo NeoTao https://neotao.info e montamos um sistema composto de um microfone sem fio, um desktop com o Via Voice instalado e um programa de Bloco de Notas aberto e um projetor de vídeo.
A performance consistia na Monica lendo cartas de amor, pela última vez, antes pôr fogo nelas diante do público.
O sistema de reconhecimento de voz, usado sem nenhum treinamento e portanto bastante errático, captava o que conseguia e escrevia ao vivo o resultado um tanto surrealista da leitura feita pela artista.
Este post é um mero memorial (escrevi menorial num ato falho revelador da pobreza do registro diante de qualquer performance) da performance realizada.
Saudades de ser artista e expôr em espaços prestigiados e fazer exposições coletivas e divertidas com as pessoas amigas artistas que eu tanto conheço.
- 28 de mar. de 2023
Atualizado: 20 de abr. de 2024
O problema das redes sociais é que você demora horrores pra fazer conexões, amizades então ninguém sai mesmo que a experiência geral esteja piorando devido ao mau gerenciamento. Então o lance é ir aos poucos e ir fazendo a transição. E o primeiro movimento é criar a conta.
Só que o Mastodon é mais burocrático justamente pra criar a conta.
Isso acontece porque tá cheio de troll e bots predatórios nas internets. Então a entrada precisa ser moderada. E como as instâncias não costumam ser empresas, (embora possam ser) e sim pessoas ou pequenos grupos que mantém servidores independentes, quem modera a entrada são essas pesssoas o que pode demorar um pouquinho, às vezes.
Talvez a grande diferença do Mastodon/Fediverso pras outras redes é que lá o espaço é realmente uma comunidade, então pra entrar você precisa atender a alguns pré-requisitos. Em geral esses requisitos são: não ser nazista, racista, homofóbico, transfóbico e aí você já tem uma barreira consistente, um território menos tóxico do que as redes atuais onde tudo isso é tolerado, quando não é estimulado no caso da fase atual do Xwitter operado pelo Kiko dos Foguetes aka El0n-homem-Moska.
Voltando ao Mastodon/Fediverso:
Qualquer pessoa que saiba programar ou esteja disposta a aprender consegue instalar e rodar uma instância e tal. Só que quanto mais pessoas houver dentro de uma instância mais posts são publicados, mais conexão é gasta e mais cara fica a manutenção. Por isso no Mastodon ninguém precisa se acumular em grandes instâncias com milhares de pessoas.
Qualquer instância menor também funciona pra se conectar à rede federada, o Fediverso. No universo das redes de empresas e bilionários especuladores tudo é de graça e as contas estão pagas. Fora desse ecossistema, os servidores, a conta de energia, tráfego de dados, limite de banda, tudo isso ainda gasta dinheiro e o dinheiro precisa vir de algum lugar.
No Mastodon não é obrigatório pagar nada em nenhuma instância que eu conheça. Devem existir instâncias que cobram pela manutenção uma vez que cada instância pode criar suas próprias regras de conduta. Eu participo (tenho @ e posto) em duas instâncias. E contribuo voluntariamente pra uma delas, a que eu posto mais. Dou menos de 10 reais por mês, pelo cartão de crédito do banco roxinho. Faço iso porque tô podendo, fiquei anos lá sem pagar nada. Mas nos últimosd meses a conta deu sempre por volta de 9 reais, isso é menos do que uma passagem de ida e volta num ônibus em SP.
Se você puder e quiser colaborar com a instância, qualquer quantia ajuda. Além do mais se a instância é gringa a conta vem em dólar. Como nosso dinheiro vale menos não sinta culpa, ninguém vai te cobrar nada. No máximo se a coisa apertar a administração da instância vai fazer um chamado público à doação, de vez em quando. Aliás eu lembro de ter lido em algum post talvez um adm divulgando os custos mensais e conta tava fechando.
Qual instância é a melhor? Todas em princípio tem acesso à timeline federada, lá você tem acesso a tudo o que é publicado no Fediverso em tempo real. O Fediverso engloba outras redes parecidas com o Mastodon como Pixelfed https://pixelfed.org/ o que significa que você pode criar uma conta nela ao invés de entrar no Mastodon e depois encontrar e seguir qualquer outra @ de qualquer outra instância do Fediverso, por exemplo o Mastodon. O pixelfed foi pensada como uma rede de posts com imagens mas em qualquer instância você pode postar imagens e vídeos além de textos.
Eu escrevo e publico e retuito como @danielseda na Mastodon.art com RTs que eu acho interessantes e posts semi pessoais ou de arte minha ou opiniões aleatórias, uma curadoria semelhante ao que eu faço no birdsite como dizem por lá. O Mastodon e o Fediverso já tem de tudo, agências de notícias, aliás qualquer universidade ou instituição pode ter uma instância e todas se conversam imagina que interessante seria isso. Lá também tem muito muito artista bom, análises politicas, culturais, jornalismo científico e de cultura, o G1 tá lá (ou alguém clonou os posts do birdsite) e vários jornais gringos. Lá tem muita gente trans, LGBTQIA+ em geral, muito ativista, gente de programação, gamers, etc.
A Mastodon.social iniciou a rede mastodon que é apenas um tipo de organização das mesmas funções das outras redes no Fediverso como o Pixelfed. Eu tenho um perfil na Mastodon.social com a @ de sempre.
Aqui tem um convite pra ela https://mastodon.social/invite/ogfGJn8 (se não funcionar me avisa)
Também tem a rede https://ursal.zone/explore que é praticamente só brasileiros de esquerda com muita política brasileira, etc.
Tem MUITAS outras instâncias.
As instâncias costumam ter também três timelines por padrão, uma de quem você segue e você pode seguir @ de qualquer outra instância ou outras partes da rede federada. A outra timeline é local, só de posts da própria instância. A última que aparece por padrão é a global ou federada teoricamente com acesso posts de todas as instâncias. Dá pra criar mais uma timeline formada por hashtags, podem ser várias, que você escolher como #art #cats ou #mushrooms ou #pokemon, sei lá. Aí você vai ter mais uma timeline, formada de gente você não segue mas que publicou algo usando a hashtag.
Os apps e sites todos tem uma caixinha de busca então dá pra procurar por uma @ sem saber a instância exata e daí seguir.
As instância sérias e que valem a pena seguir têm moderação de verdade e por isso há quase sempre um lista de outras instâncias que foram banidas, suspensas ou com ação limitada. Instâncias de cripto, NFT ou de promoção de idéias nazi ou coisas do tipo costumam estar bloqueadas, pelo menos nas duas que eu tenho perfil, estão. Qualquer um pode hospedar uma instância né, então já viu. P0rn, ou lewd como dizem lá, é permitido na maioria das instâncias desde que sinalizada com CW, content warning, o que esconde a imagem por padrão (o quadro aparece borrado, precisa clicar em cima pra liberar) mas você pode configurar para aparecer a imagem por padrão também de qualquer post com CW. O CW também pode ser usado para evitar spoiler, ele esconde o resto do post atrás do aviso, tem que clicar pra abrir e ler.
Que mais? Ah, qual app usar pra acessar o Mastodon ou o Fediverso? Eu recomendo o Tusky, pro Android. NUnca usei o app oficial do Mastodon mas todo mundo diz que o Tusky é melhor.
No iOS eu não recomendo nada porque eu não uso.
De onde veio o Mastodon e o Fediverso?
Ambos são implementações do protocolo ActivityPub, criado pelo consórcio W3C, o mesmo que estabelece os padrões pros browsers por exemplo.O ActivityPub é um sistema de auto publicação com saídas e entradas pra trocar mensagens com outros sistemas que seguirem as mesmas regras. O que significa que qualquer programador pode criar uma instância. É algo essencialmente anarquista: auto-organizado e colaborativo por essência.
É isso. Se ainda tiver com dúvida me escreve no twitter @interaubis que eu respondo se souber. Nunca viralizei então isso aqui deve chegar só pros @ conhecidos e as interações eventuais aqui devem manter uma escala humana. Não sou programador e não tenho nenhuma instância minha mas uma vez lá ou por aí afora na internet você pode perguntar questões tecnicas pra uma multidão de @s.
E se resolver abrir uma @ em algum lugar me segue, me avisa 😉
Eu fico no twitter enquanto eu conseguir ver os posts de quem eu sigo de maneira cronológica. Se banirem a timeline cronológica eu vou ficar triste mas vou ir saindo de fininho, ficando cada vez mais no mastodon.art principalmente. Já fiz isso com o Facebook, minha conta continua lá e eu entro de vez em quando só pra divulgar algumas coisas principalmente minhas aulas.















